Contos

A doença

Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.

Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.

Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”

“Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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